O Passe-Livre foi engaiolado!


Cheguei às dez e quarenta da manhã. O tempo já ameaçava virar – talvez atendendendo as implicâncias gerais. Sentei ao lado de um outro fotografo que esperava o protesto, assim como outros veiculos de comunicação – TV e impresso – também esperavam. A policia (já) ocupava o local com um efetivo nada enxuto: 18 Policiais, 2 viaturas, 3 motocicletas e uma unidade móvel com direito a toldo, ponto de reunião durante a chuva. Um dos membros do protesto me reconheceu. É o Alessandro, estudante de história na UEL e antigo conhecido de colegial. Fui até o banco onde ele estava com o Cid, um conhecido de alguns shows punks do passado. Em minutos, resolvi-me ocupar do que gosto: fotografias. De cara, fui pra onde mais chamava a atenção, o efetivo policial. Não passou alguns minutos pra eu ser abordado:

– Olá, posso falar com você?
– Opa.
– Tu ta tirando foto, é?
Fiz uma cara de quem falava o que é “óbvio”. Além da câmera, a minha posição não era propicia para um descanso no calcadão e, quem sabe, a bolsa denunciava um pouco a minha função naquele momento. Ainda assim, confirmei com a cabeça e perguntei o motivo da questão. A farda anunciava Capitão Rocha:
– Nada, é que conheço os jornalistas. Tu é de qual jornal?
– Nenhum, estou batendo foto pra mim. É pra acervo.
– Ahh, mas estuda algo…jornalismo?
– Sim, mas aqui eu vou fazer foto pra mim. Vou escrever pra mim também.
Depois do papo com o Capitão, voltei pro banco em que, ainda, só havia o Alessandro e o Cid. Eles conversavam sobre uma possível represália que membros do Movimento do Passe Livre haviam sofrido na noite anterior. Lembro-me apenas de dois nomes: Emilio e, seu pai, Evaristo Colmán. Ambos não demoraram pra chegar, creio que foram minutos após o relógio anunciar 11 horas. O céu ameaçava desabar.
Emilio mostrava as suas marcas para os outros manifestantes – luxações e arranhões. Fui conversar com Evaristo. Ele me contou que chegou no terminal para fazer panfletagem junto com seu filho e mais dois membros do movimento, mas, em questão de minutos, os segurancas de uma empresa particular que presta servicos no terminal urbano os abordaram. “Chegou a segurança privada e pediu, com muita brutalidade, pra eu não panfletar, pois era proibido. Pedi pra mostrar-me onde esta alegando isso”, segundo Evaristo, os seguranças queriam leva-lo, junto com outros dois ativistas, para uma sala onde “mostrariam isso”. Após dizer que não sairia do lugar, chamaram a PM, que eu poucos minutos veio com a mesma afirmação. Novamente os manifestantes se recusam a sair. “Não há motivos pra sermos levados, pois, não há ordem judicial ou uma ação que caracterize um delito”, essa foi a justificativa, porém, Evaristo conta que os policiais já partiram pra agressão – tapas-na-cara, socos e pontapés. Assim, o recado não foi dado, foi reprimido. Indignado, ele alega que “todos tem o direito de protestar”.
Evaristo Colmán alega que sofreu agressões de policiais um dia antes da manifestação

O calçadão ia ganhando movimento. Estavam num grupo de uns 20 integrantes, todos já separando as suas placas, batuques, apitos e faixas. Alguns jovens sairam panfletando pelo local, enquanto o carro de som estacionava. O barulho e a movimentação já chamavam atenção. Curiosos paravam pra assisitir o que se passava e os manifestantes ensaiavam as primeiras rimas.

“Policia Militar qual é a sua missão?entrar no terminal e fazer repressão.
Estudante qual é a sua missão? Lutar pelo passe livre e pela estatização”
Os manifestantes levantaram o assunto “repressão” nos gritos de protesto

Desse momento, onde teoricamente inicia-se o protesto, até o seu final, foram passados aproximadamente 60 minutos – 20 destes castigados pela chuva. O palanque era o piso petit-pavet do calçadão e um tripé suportava o instrumento que amplificava a voz do grupo, neles os manifestantes narraram episódios que marcaram o movimento em Londrina e questionaram a repressão sofrida no dia anterior, comparando-a com os tempos da ditadura militar. Devido ao numero de palavras de protesto contra o efetivo policial e a sua forma de atuação, Rocha, o capitão, pediu a palavra no microfone. Pedido aceito:
– A presença da policia aqui é pra fazer acompanhamento e garantir a segurança dos manifestantes…

Entre risos e vaias (o medo dos jovens era exatamente com a policia), Rocha completou dizendo que todos tem o direito de fazerem manifestações, porém, ele não alegou qual era o motivo de um grupo policial tão grande e as repressões ocorridas no terminal – a maior parte do tempo o movimento contou com 30 integrantes, portanto, para cada 2 manifestantes, existia um policial.
A chuva obriga os integrantes a deixarem as faixas e se esconderem apenas com as suas percussões. Quando voltam para o calçadão, ainda com um chuvisco, continuam com gritos de protesto enquanto um outro grupo prepara a catraca simbólica que será queimada.

O capitão vê um problema: Quem controlará o fogo? Fogo no meio do calçadão é um risco para a população. Os manifestantes alegam que não tem perigo, mas Rocha ironiza o argumento questionando para um homem, aparentemente bêbado, se ele “apagaria o incêndio” que iria acontecer ao seu lado. “Ahn” foi a resposta que precisava. Um extintor foi providenciado e o movimento fez o seu rito-final com a catraca queimada. Começam a enrolar as faixas e diminuir o barulho dos batuques. Me despeço dos conhecidos e vou partindo pro lado oposto, os policiais também vão se dividindo, a imprensa recolhia os seus cabos e assim termina mais um protesto do Movimento Passe-Livre.

Ué, e o terminal?

Percebe-se que os protestos do Movimento Passe-Livre vêem passando por uma mutação. Antes os protestos aconteciam de forma mais “incisiva”, quando os estudantes partiam em caminhada até o terminal urbano, mas o que se notou nos últimos protestos foi um local fixo: Calçadão. Existem algumas hipóteses para este tipo de ação:

1) A Concientização da população através da panfletagem e do boca-a-boca num dos locais de maiores movimentos pode repercutir de forma positiva para o movimento;

2) A não-adesão dos usuários do transporte pelo transtorno com os horarios dos coletivos, que já não são confiáveis, e a provável lotação neste período;

3) O Receio. Num curto prazo, o medo de repressões que já foram demonstradas no dia anterior e um velho recado dado em julho de 2003, quando os manifestantes faziam um cordão-humano em torno do onibus durante o protesto de aumento, porém, a policia deu ordem para o coletivo avançar. Anderson Silva, estudante de 21 anos, que participava da manifestação, caiu e foi morto, atropelado pelo ônibus que avançava (em conseqüência da morte, 24 de julho foi escolhido para ser o Dia Nacional Contra a Repressão e Criminalização dos Movimentos Sociais).

É provável que existem outros motivos para este tipo de manifestação – que não caracteriza o da sua luta inicial -, portanto, a construção da base que suportará o manifesto e sua expressão na sociedade é decisão dos integrantes, junto com suas estratégias e debates no cotidiano.

Porque eles brigam ainda?

Defendemos o passe livre para todos os estudantes em todos os níveis – fundamental, médio e superior -, a estatização do transporte e a redução da tarifa ao valor de 2003, que era de R$1,35

E não é por bobeira. Além do óbvio, que é o direito ao transporte perante a Constituição Federal (Art. 205 e 206, inciso I e o Art. 208, inciso VII, por exemplo) e o aumento excessivo entre 1995 e 2005 que passa dos 526%, aqui em Londrina a cobrança é alvo de dúvidas pelo Ministério Público. O promotor de Defesa do Consumidor, Miguel Jorge Sogayar, em entrevista a Folha de Londrina, no ano de 2005, acusou e criou uma ação contra o Município/CMTU e as empresas de transporte urbano (Transportes Coletivos Grande Londrina e Francovig) por “inumeras irregularidades” na planilha de aumento apresentada pela CMTU. Mais do que dados trocados, valores sem comprovação de fonte e a inserção de numeros falsos, não consta no documento a receita obtida nas locações da frota, publicidade nos veículos (que é intensa) e as receitas do serviço “PSIU” (Neste caso, o valor do transporte é de R$2,50). Nesta época, já havia uma ação desse tipo protocolada em 2003.
O promotor
salientou que ”o importante é saber quem usa o transporte coletivo em Londrina. É a população pobre. Não se pode tratar o transporte coletivo sem respeitar o princípio básico de que trata-se de um serviço essencial, garantido na Constituição Federal”.
Em defesa, desde o inicio dos aumentos, as empresas alegam o aumento do diesel, o reajuste salarial e a troca da frota como os principais “agentes causadores” na elevação do preço – vale lembrar que o preço do diesel no Paraná variou de R$1,55 a RS1,65 entre 2003 a 2005.
Londrina, junto com outras cidades, segue no topo da maior cobrança no estado (R$ 2) e o momento não é de esperança, pois, no inicio do ano foi pedido uma verificação de reajuste por parte das empresas e as férias escolares estão chegando. É o momento propicio para um aumento às escuras.
Portanto, até o ano que vem, Movimento. Veremos as novas músicas, novas idéias, novas caras… porém, as mesmas faixas.

Anúncios

2 Comentários

Arquivado em Londrina, passe-livre, protesto

2 Respostas para “O Passe-Livre foi engaiolado!

  1. camillasbr

    Muito bom o texto, amor!
    Sou suspeita para te admirar, mas convenhamos, são poucos os que conseguem transmitir, ou mesmo narrar um “ocorrido” de maneira tão clara e objetiva.

    Já disse que você é meu oegulho?!
    Não pare de escrever! TE AMO

  2. Pingback: TCGL - O pesadelo mal começou « Cara de Paisagem

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s