O Profeta dos Tempos Eleitorais


Em 2000, meu professor de história, Norival Claro, pediu que acompanhássemos o horário eleitoral na TV, que cada um anotasse 30 propostas de diversos vereadores de qualquer partido, para depois avaliarmos as respectivas idéias. Não me recordo se houve discussão em sala – provavelmente houve -, mas me lembro perfeitamente o que notei enquanto anotava as idéias dos candidatos: Discursos homogêneos. Chamei de “faz-tudo” o candidato que promete segurança, infra-estrutura, educação, transporte, moradia, saneamento básico, saúde, emprego e dignidade aos mais pobres. Era exatamente assim; Muitos perdiam o fôlego até. Na época, a única coisa que me ocorreu foi a impossibilidade daquelas propostas.
Hoje noto que talvez meu pensamento tenha sido torto, mas não foi errado. Torto porque não sabia que aqueles candidatos, na verdade, não estavam oferecendo ou propondo nada: Nada!

Pois, o candidato que for eleito tem uma série de responsabilidades que vou chamar de “Contrato Social”. O “Contrato-Social” é assinado automaticamente e tem todos os itens considerados “promessas de campanhas”. O designado ocupa um cargo público e foi legitimado para, de um modo automático, servir os interesses de todas as esferas da sociedade – e nestes, estabelecer critérios e prioridades que favoreçam o bem-estar social. Portanto, o candidato que chama o eleitor de indigno (sem comida, sem educação, sem transporte, sem emprego) tem a obrigação de fazer algo. Não é sinecura, é um dever social.

O discurso dirigido

De um outro lado estão os que canalizam as obrigações e as transformam em mercadoria, com jargão e tudo. Quando um vereador decide criar uma proposta de trabalho, ele promete uma meta inadiável. Exemplo: “Vou construir a tão necessária estrada ‘norte-sul Londrina'”, neste caso, quando o candidato apresenta uma proposta que foge do padrão, ele atinge um eleitor-alvo; alguém que depende exatamente daquilo que ele propôs. Se uma obra desse tipo era esperada pela região em destaque, será maior a abrangência do voto.

Decodificando o caminho que a proposta traçou, temos as palavras-chave da manipulação indireta. No exemplo da estrada fictícia “norte-sul Londrina”, uma das necessidades básicas foi segmentada, direcionada, apresentada e imposta. Os passos seguintes são a superlativação e a dependência.
Segmentada – o setor de transporte foi dividido no tema para fazer fusão com outros temas segmentados. Exemplo: “Ele não falou em reformar ruas, mas fará uma estrada que trará investimentos e emprego para a região”.
Direcionada – Não é mais um “tiro-cego”ou uma generalidade. Agora ele transmite fidelidade com a/o região/eleitor escolhida (o) na proposta. Exemplo: “Amigos da região sul/norte”.
Apresentada – Detalhar “o porque” e “como” são essenciais para o pós-horario eleitoral. Além de ser uma etapa de convencimento, servirá também de munição para a guerra do boca-a-boca que o novo leitor irá enfrentar. Exemplo: “A estrada vai sair daqui e vai até a região norte. Ela passa onde tem os locais com grandes indústrias na cidade. Pode ser feita em no máximo 2 anos!”.
Imposta – Quando o candidato traça o projeto, ele não abre espaço para debates; ele apenas impõe. Se haverá algum impedimento, isso é visto depois. Durante a campanha ele impõe projetos em suas apresentações, dificilmente ele “busca” opiniões avessas ou acatam alternativas, pois tem que evitar os ruídos/empecilhos causados pela alteração da conduta. Estas alterações no meio da campanha criam uma falha na redundância e na identidade do projeto.
Superlativação – A valorização é algo crucial. O candidato irá apresentar comparações de locais que já adotaram propostas semelhantes (nunca iguais, o ineditismo não pode ser rompido) e que obtiveram sucesso. Normalmente cidades da região que tem dados crescentes quando comparados ao da cidade do eleitor – esta pode aparecer com os dados “congelados” ou “decadentes”. Mostrar a ascensão de uma cidade que tem iniciativas parecidas com as apresentadas pelo candidato, renova a moral e confiança do eleitor. Também ascende uma súbita vontade de “crescer” com aquela idéia. Exemplo: “Cascavel há três anos tem um projeto parecido. A via rápida que liga o parque industrial da cidade ao lado norte e oeste fez com que a cidade subisse de 8º melhor cidade do estado para o 4º lugar. Londrina estava em segunda até o ano passado, mas no ultimo resultado divulgado apareceu em 5º lugar”.
Dependência – O mais universal e importe ponto é a dependência. Neste momento, onde é finalizado o plano de convicção, o peso do “é possível somente” cai sobre as costas do eleitor. Toda a desgraça descrita, todo o sucesso alheio e a possível salvação dos tempos resume-se em: “Para tudo isso que prometi, querido amigo, dependo do seu voto

Estes são, segundo minhas perspectivas, os degraus da manipulação indireta através da proposta.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em candidatos locais, Eleições 2008, jornalismo, política

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s