Entrevista com Fábio Silveira – parte I


Olás, vou dividir essa entrevista em 3 partes com os leitores e com os blogs locais. Acredito que o Fábio nem sabe que tô postando – ele vai descobrir.
O foco era Jornalismo Investigativo e a entrevista foi feita em setembro para a disciplina da Karén Debértolis. A foto eu peguei do orkut dele e quem a fez foi o Gilberto Abelha (achismo).
A próxima série (espero eu) será com o jornalista Marcelo Frazão (que posta no blog da Ong MAE, também do JL), que o Ítalo entrevistou.
Segue a entrevista (próxima dia 25 e a última dia 27):


fabiosilveiraO gaúcho Fábio Silveira é aquele jornalista que qualquer acadêmico gosta de entrevistar: Acessível, simpático e com conhecimento para dar e vender. Formado pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), com especialização em Sociologia e mestrado em Ciências Sociais, trabalhou em rádios e impressos, como a Folha de S. Paulo em São José dos Campos, por exemplo. O Jornal de Londrina, onde escreve há mais de dez anos, foi o local de nosso bate-papo. Fábio se disponibilizou a aparecer na redação 30 minutos antes de iniciar seu plantão em pleno domingo de Stock Car.
Outros motivos para Fábio Silveira ser visado no meio acadêmico: Dá aulas na Faculdade Pitágoras e é autor do livro “Imprensa e política – o Caso Belinati”, que é sua dissertação de mestrado e xerox de cabeceira de varios alunos dos cursos de Comunicação Social da cidade.
Participa também de comunidades de relacionamento na internet. Lá indentifico que Fábio não esconde duas coisas: Odiar neoliberais e amar o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. Por fim, se rendeu de vez aos encantos da internet e criou seu blog, o Baixo-Clero, uma dose diária de bom colunismo político de nossa cidade.

– Vamos começar falando sobre o que chamamos de “jornalismo investigativo”.
A rotinização do trabalho nas redações te empurra cada vez para as fontes oficiais. O que acontece: Temos cinco horas para fazer uma matéria e fechar uma edição. Então a necessidade de informação vai ser melhor atendida aonde? Na fonte oficial. Por exemplo, fiz uma matéria sobre as “promessas das escolas de período integral”. Quem tem o dado mais concreto? É a secretária de educação. Então, o curto tempo que a gente tem para fechar uma edição ela nos empurra sempre para a fonte oficial.

Daí existe uma contradição, porque se o jornalismo ele é visto como “quarto poder”, ouvindo apenas as fontes oficiais ele nem sempre faz um contrapoder, um fiscalizador ou, como dizem os americanos, um cão de guarda que defende o cidadão e seus direitos contra o despotismo do Estado.

Eu vejo que o jornalismo investigativo não é a grife de câmeras escondidas. Coisas de jornalismo gonzo que falam “Oh, vou ficar 6 meses no meio dos hippies e vou contar uma história”. Pra mim o jornalismo investigativo é sempre quando você tem uma oportunidade de sair e ir além das fontes oficiais.

E para mim, que comecei cobrindo polícia, tinha uma repórter muito legal, a Nicéia Lopes. Ela tinha tempo pra ir lá no bairro, no vizinho, toda a vez que tinha um assassinato. Ela fazia um trabalho que as vezes nem a polícia fazia – enquanto a maioria dos repórteres ia na polícia, no delegado e não sei o quê mais.
Normalmente a minha prática é fechar o cerco, para depois chegar na fonte oficial.

– E você se recorda quando leu a sua primeira matéria investigativa?

Não, isso não lembro, mas desde a época da faculdade assino a Folha de São Paulo. No Brasil, apesar de todos os problemas, ela consegue ser um tanto independente, ou “menos ruim” comparado com a maioria dos jornais do país, além das matérias investigativas que produzem.

Mas tive uma grande decepção em relação à Folha. Trabalhei no jornal desde maio de 1997 a janeiro de 1998. Foram 8 meses – o maximo que alguém aguenta lá. Eu representava a regional de São José dos Campos e o trabalho era quase escravo. Uma exploração grande de quase 10 horas diárias ou mais.
Lembro-me que na época foi publicado um matéria sobre o trabalho escravo no Brasil, e se compararmos com a rotina da redação é ironia. Ainda era virada do dia 1º de maio, minha primeira semana na Folha de São Paulo.

– No jornalismo investigativo, o jornalista pode transformar uma mentira em verdade?

Isso é um problema do jornalismo. Eu já saí da redação com a pauta que na verdade, dependendo do pauteiro – se ele é mais ou menos ideogilizado -só pra confirmar uma tese do cara. Na verdade, quando tu sai pra fora, tem que sair aberto para contradizer aquilo que você pensa. Eu já fiz várias matérias que mudou a minha forma de pensar. Por exemplo, ouvia falar de compostagem – achava “bonitinho” – mas fui fazer uma matéria sobre isso e agora eu separo tudo. Lá em casa tem duas latinhas: Lixo orgânico e lixo comum.

10 Comentários

Arquivado em Baixo-clero, Internet, Investigativo, jornalismo, jornalista, Londrina, política

10 Respostas para “Entrevista com Fábio Silveira – parte I

  1. Nilton

    Excelente entrevista.
    Gosto muito do trabalho do Fabio Silveira, leio sempre suas reportagens e também acompanho seu trabalho no blog baixo-clero.
    Nem sempre concordo com suas idéias ou comentários, mas acho isso normal. Afinal, ele não escreve para agradar a todos.
    Mas, mesmo quando ele vai contra o que eu penso ou acredito, continuo a respeitá-lo como pessoa e como profissional.
    Parabéns ao Fabio pelo trabalho e parabéns ao Roberto pela entrevista.
    Vou esperar pelas partes restantes.
    Abraços a todos.
    Nilton Micheletti

  2. Patrícia Marin

    Gosto muito do seu trabalho, mas o que o Fábio faz não é jornalismo investigativo. O último que passou por Londrina chamava-se Valter Tele, que hoje está em Maringá.
    O Fábio pode ter até tino para investigação, mas talvez pela própria falta de tempo, como ele mesmo relatou, fica difícil fazer jornalismo investigativo.
    Caro Roberto, investigue mais e descubra novos jornalistas investigativos. Você vai ver que em Londrina não temos ninguém, o que é uma lástima!!
    abraços

  3. Gosto muito do blog e da coluna do Fábio no JL. É notícia curta e direta, sem aquele comprometimento de querer fazer a cabeça do leitor e partir para a crítica infundada e por vezes agressiva, como a coluna daquele Geraldo esqueci-o-sobrenome na Folha de Londrina.

  4. Fábio Silveira

    Patrícia: segundo a Malena Contrera, que fez palestra aqui em Londrina recentemente, o único jornalista investigativo do Brasil é o Zé Bob da novela das oito – hehehehehe
    Eu particularmente acho que faço jornalismo investigativo, mas não é todo dia, que isso dá muito trabalho – hehehehehe.
    Seguinte: acho que em alguns momentos (infelizmente não é sempre) conseguimos fazer o que eu entendo por jornalismo investigativo, mas não é sempre. Porque é realmente duro: além de reportagem eu faço coluna e em semanas alternadas, editoriais. Nesse mês, como o outro colega que faz editoriais está de férias, eu estou fazendo sozinho.
    Valeu pelo comentário
    O perfil que o Ortega fez está generoso.
    Valeu

  5. Patrícia Marin

    Então, Fábio, vc concorda comigo. Quem é Jornalista Investigativo é investigativo 24 horas por dia.
    Mesmo vc não sendo assim eu admiro o seu trabalho. Parabéns!

  6. Fábio Silveira

    Concordo em parte, Patrícia. Quem tem condições de ser “jornalista investigaivo 24 horas por dia” são os repórteres especiais que só existem nas grandes redações. Eles ficam fora de pauta, não têm obrigação de fazer as matérias necessárias para fechar a edição do dia. A Folha de S. Paulo tem um grupo de repórteres especiais, que só atuam na investigação. Um deles é o José Maschio, o “Ganchão”, que mora aqui em Cambé, mas que vive viajando para fazer essas matérias – raramente ele faz matéria local.
    Os jornais pequenos do interior não têm estrutura para isso.
    Mas ainda acho que em alguns momentos podemos fazer jornalismo investigativo. Estou orientando um TCC de uma menina que mostra como, em alguns momentos da crise da Câmara, a Folha de Londrina fez jornalismo investigativo – o caso que ela indica é o da tanatopraxia, que foi levantado por eles e levado para o MP (me parece que pessoas procuraram a rádio Brasil Sul, onde o Fábio Cavazotti trabalha e ele levou o caso para a Folha). A Vita Guimarães, quando trabalhava na rádio Paiquerê AM, foi quem recebeu primeiro as informações sobre o superfaturamento num contrato de roçagem da Ama, em janeiro de 1999. Nascia ali o caso Ama/Comurb. E foi jornalismo investigativo. Eu entendo a tua questão da seguinte forma: não existem jornalistas que fazem jornalismo investigativo o tempo todo, logo não existem jornalistas investigativos em Londrina. Nisso eu concordo contigo.
    Mas a imprensa londrinense faz jornalismo investigativo, ainda que não seja uma prática diária.
    Grande abraço
    Fábio

  7. Patrícia Marin

    Por isso, Fábio, eu acho que a Folha de São Paulo é o jornal menos ruim do Brasil. Porque lá tem jornalismo investigativo de verdade, eu a-do-ro as matérias do sr. José Maschio.
    No interior, Londrina no meio, vemos um arremedo de investigação.

  8. concordo contigo, Patrícia. Inclusive com relação ao “menos ruim” da FSP – hehehehe

  9. marcelo silveira de almeida

    Parabéns Fábio, muito bom trabalho.

    aguardo teu contato por e-mail

    marcelodealmeida_adv@yahoo.com.br

    Abraços!

    Marcelo Silveira de Almeida (teu primo de Porto Alegre)

  10. LOURDES

    ESTOU SOLIDARIA AO ESTUDANTE ELE FEZ O QUE EU FIQUEI COM VONTADE DE FAZER NA AVENIDA PROXIMO AO SHO CATUAI MAS EU ESTAVA DE CARONA POR ISSO NAO FOI POSSIVEL

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