Entrevista com Fábio Silveira – parte II


Essa entrevista tem três partes, para ler a primeira parte clique aqui


(continuação)

– Tem que ter o que você chama de “isenção de ânimo”?

É, isso. Isenção de ânimo.

Quando eu trabalhei na Folha de São Paulo, tinha esse lance de que a tese deveria ser confirmada. Uma vez fui fazer uma matéria, dezembro de 97, era algo que o estado todo tava fazendo: Eles queriam provar que o dinheiro de renda mínima de São Paulo era usado pelas famílias para comprar eletrodomésticos e ceia de natal. Eu passei três dias, inclusive véspera de natal, andando por São José dos Campos, em favelas barras pesadas e não vi nada disso. No primeiro dia, escrevia o que tinha e não batia com o dos caras, ia no segundo e não batia, no terceiro fui até com outro repórter e a gente não achou nada disso.

O que eu achei: Uma mulher que comprou o ferro de passar roupa, mas só que ela passava roupa pra fora, aquilo era instrumento de trabalho da mulher. Uma outra comprou um frango. Isso é uma ceia de natal?
Enfim, o cara me liga de São Paulo dizendo “Olha, todas as outras cidades acharam”, disse “Oh, eu só posso escrever o que eu vi e o que eu vi está escrito aí”, daí o cara: “Mas nós vamos botar aqui”, Respondi, “Oh, pode botar o que tu quiser, desde que não use o meu nome”.
Então tem essas coisas em matérias investigativas, que a gente não sabe se os reporteres constataram apenas para agradar o editor.

Olha, isso só vi em matéria lá em São Paulo. Aqui no JL a gente faz de vez em quando matéria tabelada com a Gazeta do Povo, de Curitiba, que tem fama de ser mais conservadora e nunca aconteceu isso. Mas na Folha de São Paulo aconteceu, que é uma grande grife do jornalismo. No estado de São Paulo, quando tu diz que trabalha na Folha de São Paulo, as portas se abrem e desce uma luz branca do céu “Ohhh, pode entrar”.

– Como é o trabalho aqui? Por ser uma cidade de interior – “caipiras” – nosso jornalismo investigativo é com matinho no canto da boca?

Aqui no Paraná é engraçado. Londrina sempre teve uma imprensa mais independente, questionadora. Já em Curitiba era aquela coisa chapa branca, oficialzona. Mas de 3 anos pra cá, as coisas estão invertendo.

Em Curitiba, que os caras já tem dinheiro, resolveram bater na máfia dos ganhafotos, no nepotismo. Então, ela ta fazendo jornalismo que nunca se fez em Curitiba… e aqui em Londrina, a gente ta perdendo espaço; Porque Londrina sempre foi uma grande escola de jornalismo.

Mas olha: fazer jornalismo investigativo num jornal pequeno, como o JL, não é fácil. Porque se tirar um cara para investigar uma coisa durante 3 dias para virar ou não matéria, complica. A gente não tem pessoal para deixar o cara de fora e ficar cobrindo.

Mas é aquela coisa: O que me move? O que me move é fazer jornalismo até as ultimas consequências. Gosto do que faço.

Por exemplo, nessa crise na câmara, que eu fiz muitas matérias que podem ser consideradas investigativas, porque antecipava e ia além do ministério publico – muitas vezes até pautava o ministério público – nessa crise eu fazia o editorial de manhã na minha casa, para poder me decicar a tarde na reportagem e na coluna.

Quando vai lá pro lado do Centro Cívico (Ministério Público, Câmara, Prefeitura) normalmente se fica uma hora e vai embora. Eu ia lá e ficava três ou quatro horas, o maior tempo possivel. Mas esse tempo a mais que eu estava fora eu ficava fuçando em alguma coisa. O pessoal da redação não sabia e eu só contava para a pauteira, a Rosane – eu sou do serviço reservado, da P2 (risos) -, porque se eu solto na reunião dos editores que eu to investigando uma situação, eles ficam loucos, eles já querem a matéria para o proximo final de semana. Às vezes uma matéria precisa de duas, três ou quatro semanas para amadurecer.

Na matéria da lista do Caldarelli, foi uma situação que cheguei até a pautar o ministério publico, isso que foi legal.

Era a historia de um processo de execução de uma dívida do Célio Guergoleto da qual Renato Araujo e Bergamin eram avalistas. Daí o ministério público encontrou o nexo entre essa dívida que foi pago pelo Renato Araujo com a doação do terreno pro Caldarelli. Porque os cheques que pagavam as dívidas era de um ex-namorada do Caldarelli.

7 Comentários

Arquivado em Baixo-clero, blog, Imprensa, Internet, Investigativo, jornalismo, jornalista, Londrina, Paraná, política

7 Respostas para “Entrevista com Fábio Silveira – parte II

  1. Muito boa a entrevista e realmente muito interessante essa discussão de jornalismo investigativo.

    Acabando o curso de jornalismo esse ano vejo que há uma ironia com relação a tempo e estrutura.

    Na faculdade é possível fazer esses trabalhos com mais fôlego. Aliás, é preciso fazer isso. Estudar e fechar o cerco do assunto para checar e confrontar as informações com as fontes oficiais. Porém o que falta muitas vezes aos estudantes é a estrutura. Dinheiro mesmo. Alguém tem que pagar telefone, transporte, alimentação e todos esses custos. Acredito que isso diminui o potencial do trabalho.

    No jornal percebo o contrário: há uma estrutura. Longe de ser adequada, mas o custo para fazer uma matéria não é individualizado. Porém o que compromete é o tempo. De o jornalista refletir o assunto e não apenas sair para comprovar os fatos.

    Ainda não tenho muito o que falar sobre isso, mas acredito que para os estudantes de jornalismo uma boa oportunidade é a dedicação no trabalho de conclusão de curso.

    Entreguei o meu ainda esse mês e é uma experiência sensacional. Montar o projeto e deixar ele caminhar. O assunto foi sobre a Guerra de Porecatu e praticamente toda semana era uma descoberta nova.

    Por enquanto acho que é isso, se não é possível fazer esse jornalismo investigativo o tempo todo, pelo menos então tentar incrementar informações na matéria, não apenas confirmar.

    É isso!

  2. Perez Alves

    na materia do JL sobre a lista do caldarelli se eu não me engano não foi publicada a lista, porque?

  3. Para mim um dos casos de maior repercussão na cidade, referente ao Jornalismo investigativo, foi o caso AMA-COMURB, no qual a investigação da Jornalista e (minha mãe)Vita Guimarães, foi o “start” para a mobilização do Ministério Publico local . parabéns pela entrevista do Fábio… quem sabe um dia (quando eu entrar na Universsidade) eu não o tenha como professor.

    obs vc poderia publicar a entrevista na integra né!!

  4. Roberto Ortega

    Dae André.

    Tô colocando de “golinhos” pra todo mundo entender e se interessar. Se eu jogo tudo de uma vez, fica cansativo para o leitor do blog.

    Até mais!

  5. Perez: nós não publicamos a lista na íntegra num primeiro momento porque ela carecia até de confirmação de autenticidade. A lista em si era um pedaço de papel recortado, com rasura, etc. Depois de confirmada a autenticidade o material foi publicado.
    A prevenção se justifica: o MP que é o MP só processou os outros nomes que apareciam na lista (além de Bonilha, Renato e Osvaldo Bergamin, que estavam implicados diretamente na apresentação do projeto) depois que o Bonilha saiu acusando todo mundo. Antes disso eles também estavam preocupados com a autenticidade ou não da lista. O fio da meada que eu descobri a partir de uma fonte e que ligaria o Renato e o Bergamin ao problema era uma ação judicial de cobrança, na qual o Renato e o Bergamin eram avalistas. O acerto da dívida foi feito e o pagamento foi com cheques de uma pessoa ligada ao Caldarelli.
    André: sobre a Vita, coloquei um comentário num debate com a Patrícia, a respeito do post anterior.
    Valeu pela atenção.

  6. martina cambe

    Hummm, então foi a Vita que startou o caso Ama-Comurb. Como ela trabalha pro Hauly, acho que quem assoprou o caso das lixeiras pra ela foi o Amauri Escudeiro ou algum tucano.
    De qualquer forma, ela (o Hauly e o Amauri) prestou um grande serviço para a cidade.
    Sucesso, Vita!

  7. Vita Guimarães

    Não sou uma internauta muito dedicada. Fico um tempão se acessar( ao contrário do meu filho, o André Guimarães que está em todas. Mas, percebo que preciso ficar mais atenta e assim poder responder questões que envolvem meu nome. Por exemplo: o comentário da Martina Cambé. Ele foi postado há exatos dois meses. Se há uma coisa que me deixa chateada (e graças a Deus , isso pouco acontece) são as insinuações maldosas. Porém, ainda é tempo de esclarecer. Martina, eu trabalhei 37 anos no rádio londrinense e desses, cerca de trinta dediquei efetivamente ao jornalismo com muito amor e respeito pelas pessoas e instituições. Quem trabalhou comigo ao longo de todo esse tempo sabe que eu jamais misturei o meu trabalho de radialista e jornalista com a minha outra paixão(tenho várias) :a política partidária, onde milito desde 1976. Escreví tudo isso(não sou muito de escrever; me sinto melhor falando) para te dizer com todas as letras que nem Hauly e nem Amauri Scudeiro…nem tão pouco qualquer outro tucano me “assoprou” sequer uma vírgula sobre o caso mais tarde denominado AMA COMURB que se arrasta há quase (ou já) uma década. Aqui não dá prá te contar como tudo começou, mas estou à sua disposição prá te mostrar a verdade dos fatos. Quero te conhecer. Meu e-mail é “vitaguimaraes@sercomtel.com.br”.Obrigada por me desejar sucesso e te desejo o mesmo. Em tempo: também não te conheço, Roberto Ortega.Quero ter o prazer de falar contigo. as:Vita Guimarães.

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